marcella mattar

escritora. o resto é pura indecisão.


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Ipanema

“Não consigo me lembrar do resto da noite, no entanto recordo de uma conversa em particular. Os outros haviam ido embora e ficamos os três na beira da praia, esperando o amanhecer. Não sei dizer que horas eram, mas ficamos sentados durante um longo tempo na espera, apenas sentindo o vento e o ar da madrugada. Combinamos que não iríamos embora até que o sol aparecesse.

– Vocês se consideram pessoas fortes?

Anita tinha uma forma peculiar de fazer esse tipo de pergunta a qualquer momento. E isso é provavelmente uma das coisas que eu mais sentiria falta nela, independentemente de quantas pessoas viesse a conhecer depois.

– Depende do que é força para você – foi a resposta de Márcio.

– Estar íntegro, inteiro em si mesmo – ela disse.

Sim, ele respondeu. Às vezes, eu disse. E houve um silêncio denso depois disso.

Anita enterrou o cigarro na areia, fazendo um montinho em cima dele. Parecia uma criança brincando de montar castelo na areia, o que me fez rir por um instante.

– Às vezes eu acho que tem algo dentro de mim dissolvendo. Como que esquecendo, sabe? Deixando de lado tudo. – ela respirou profundamente o ar – Tudo.

Olhei para ela, admirando a forma como se concentrava, como parecia ser feita de palavras. Era como se entrasse nas suas idéias verdadeiramente. Nada era superficial ali.

Anita continuou:

– E então penso que não quero nada disso. A vontade pela vida se torna fraca. Apagada. Quero apenas ficar só e fechada, num mundo próprio sem nada disso. Nada de real.

– Como enlouquecer? – perguntei.

– Enlouquecer. – ela assentiu.

Márcio opinou:

– Quem enlouquece perde a vida, Anita. Quem enlouquece errou o caminho.

– Não acho que seja errar o caminho. É apenas seguir outro caminho, diferente.

Anita continuava tocando a areia, como se estivesse enterrando cigarros invisíveis. Pus as mãos na areia também para sentir a textura. A sensação gelada nas mãos era agradável.

– Como você sabe que não é mais feliz? Você já esteve na cabeça de um louco? – ela continuou.

– Não tem como ser feliz se não é real – Márcio retrucou.

Eu quis falar em nome de Anita então.

– Mas e o que é a felicidade se não um monte de liberação de dopamina? De serotonina? Pergunte a um médico. Ele vai te dizer que o prazer é isso, nada mais. Ele não está em coisas específicas, e nem pode estar. – senti que Anita concordou com as minhas palavras. Ela encontrou minha mão pela areia e parecia acariciá-la com os dedos. Olhei para o seu rosto, e ela parecia feliz. – Você só tem que viver o momento. Não pode deixá-lo passar.

Anita disse:

– Meu cérebro está liberando um monte de dopamina nesse momento.

Nós rimos. Márcio riu também.

– Você pode conseguir isso com drogas – ele disse.

– Você pode conseguir isso com música. – eu disse.

– Viagens – Anita lembrou.

– Para dentro ou para fora de si? – perguntei.

Anita fez uma careta indecisa.

– O quê?

– Viagens.

– Para dentro. – Anita sorriu para mim. Continuou sorrindo e senti como se entrasse no sorriso dela, ou talvez só estivesse bêbado demais. A água, a noite e o sorriso de Anita, minha mente se inundava disso. Não precisaria de mais nada. Eu estava íntegro dentro de mim mesmo. Forte, segundo ela.”

trecho do conto Ipanema,do livro O movimento do oceano (2012).

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Em algum lugar (relato de uma viajante)

Há sempre um momento em uma viagem em que você se vê completa e devastadoramente só. Dar-se conta dessa solidão te assusta, mas você sabe que está lá por algum motivo, então continua. Não tem vontade de voltar para casa, ainda assim questiona o porquê de passar por tudo isso. Você quer tudo, tem uma ânsia incontrolável por essa experiência – e por todo tipo de experiência que te emocione, pois é isso que você busca, sentir alguma coisa e fugir do vazio ao qual todos tememos cair . Você deseja tudo tão fortemente que até tem medo do que lhe espera. Sabe que está indo no caminho certo, pois está a descobrir algo novo. A tristeza dos dias antigos, que agora lhe parecem distantes, não lhe pertence mais. Você sabe que a vida se encarregará de fazer com que esses momentos façam sentido na sua trajetoria, que sejam a cereja do bolo das suas memórias, aquilo em que você pensa quando busca se autodefinir. O que guia o seu caminho a um senso de direção, pois você sorri a cada vez que pisa num lugar novo, e chora e depois sorri de novo quando tem de dizer adeus. Você não se contentou com uma vida comum, com uma vida qualquer, e deve se orgulhar disso. Foi em busca de qualquer direção, de um encontro com distintas realidades, com outras pessoas, com mais, muito mais do que o lhe seria oferecido se ficasse parado num mesmo lugar.
E então você se vê só, em um lugar longe. De repente, dá-se conta de que está ali, realmente, pertence ao momento e o momento lhe pertence. A cidade já faz parte de você. As pessoas que conheceu já se tornaram tão íntimas, tão intrínsecas que sequer há como deixá-las ir. O momento de adeus não se faz possível, não importa quantas vezes o diga. Tantas sensações e memórias se mesclam num estado de sentir indefinido, em que nada mais é estrangeiro. Você é todos os momentos que viveu. A solidão não lhe assusta mais, a solidão agora lhe faz sorrir pois finalmente a vida se fez presente em algum lugar.

 

(Buenos Aires, 27/07/2012)


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Conchinhas Coloridas

“Você não acreditaria se te dissesse, mas acredito na espera por dias mais claros, ainda. Acredito no som da água tocando a areia, no farfalhar das folhas quando caem sobre as ondas que correm sem sentido. As ondas não seguem um padrão exato, não é mesmo? Elas andam, simplesmente. Elas não correm para trás. Algumas são mais altas, mais fortes, mais velozes. Algumas fazem mais barulho. Eu sou como uma dessas ondas, pai. Não sei exatamente para onde estou indo, no entanto a única certeza que tenho é de que me movimento para frente. Estou andando, é só o que sei. Eu ando conforme o movimento do oceano. Deixando livremente que o tempo passe, sem receios de olhar para trás. Sem dor. A dor já não sinto mais, não me permito sentir.”

trecho do conto Conchinhas Coloridas, do livro O Movimento do Oceano (2012).


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Enquanto a cidade respira

“Parei e, pela primeira vez, escutei o som do mundo. Senti que a cidade respirava num movimento frenético de inspirar e expirar; o barulho de carros, de pessoas e pássaros mantendo-se até o amanhecer.

Lembrei, então, que o silêncio é algo que só existe quando intrínseco. Onde havia o silêncio, eu ouvia o barulho. O som vibrante de uma cidade com vida própria, onde pela primeira vez fui livre para escutar.”

(trecho do conto Enquanto a cidade respira)


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O mundo se fecha aos nossos olhos

“Havia muitas coisas que Cecília nunca havia dito. Ela nunca dissera que se sentia tola por continuar buscando uma aproximação maior a cada segundo, sentia-se insegura e inquieta por estar ao lado dele, apagando-se para dentro da vida de Roberto como um pássaro que, a cada tentativa de alçar vôo, cai no chão. Viver é um movimento livre, e a queda faz parte desse processo contínuo e instigante que é a vida, ela sempre pensou. Mas a queda tem de vir de mim.

Depois de realizar isso, o espaço entre eles mudou – tornou-se algo sólido demais, sem toda aquela beleza que sempre enxergara nas horas ao lado de Roberto. Ela nunca disse que, bem na verdade, ele entrara na vida dela de modo que ela jamais entraria na dele. Cecília nunca disse uma palavra sequer – era uma existência quieta, beirando o precipício da vida, num estado de quase interminável, sem nunca atingi-la. Sem nunca atingir o ponto – aquele ponto ao qual todos queremos chegar, onde a felicidade se faz presente, aquela clareza nas sensações e no sentido. Aquele ponto que esperamos, que não sabemos bem o que é (e nos preocupamos a vida inteira por talvez nunca sabê-lo), mas que acreditamos ser um ponto estável: a partir daqui, tudo está em seu lugar. Se está onde se quer estar. A partir daqui, acabou o desespero, findou a busca. Esse era o ponto, talvez inatingível. Cecília não se sentira assim ainda, e sequer sentiria, não enquanto continuasse no espaço cômodo que havia construído. Um espaço longe da vida, é verdade. Um espaço de quase interminável, como quem fica sempre do lado de dentro da janela.

– Você não tem escrito mais? – Roberto perguntou.

– Tenho.

– Ah, é? Nunca mais ouvi você falar sobre a escrita.

– Ando meio desiludida. Parece que estou andando em círculos e nada chega a lugar algum.

– Isso é a vida, meu amor.

– A vida é andar em círculos?

– E não é? – Roberto respondeu.

– Só se você for um desistente.

Ele riu. Acho que você está se entregando demais, Roberto, ela pensou, não disse. Cecília queria chegar a algum lugar, sempre quis. Ela não disse, você não se importaria de continuar nessa inércia, nessa coisa que sempre nos remete a isso aqui – esse quarto, essa escuridão, nossas conversas, nossa vida compartilhada que não existe por fora dessas paredes. E aonde chegamos, agora? Deixamo-nos levar por essa onda, fomos indo quase sem pensar, seguindo um rumo que fluiu continuamente. Tudo parecia tão certo, natural. Agora, não mais. Agora, estamos aqui nesse espaço beirando o esquecimento. Sinto a densidade dessas horas, um peso enorme de profundidade imergindo sob mim, como num oceano imaginário. Estou dentro desse oceano, e a cada instante se torna mais difícil respirar. Sou eu mesma e, ainda assim, sou a parte de você que se fez presente em mim. Você, Roberto, está tão presente em tudo que me faz questionar sobre todos os outros espaços de mim que você não atingiu. Será que ainda existem? Há uma vida inteira sem você. Há uma vida inteira que poderia ser minha, sem você.”

(trecho do conto O mundo se fecha aos nossos olhos, que ainda não pertence a nenhum livro.)


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sobre o ‘amor’

Quando digo que sou escritora, a maioria das pessoas acha que, pela pouca idade, escrevo textos adolescentes do tipo fulano-encontra-fulana ou o-diário-de-sei-lá-quem. Daí eu digo que uma temática bem presente no meu livro é a morte, a pessoa já fica me olhando tentando encontrar algum acessório de caveiras ou algum indício de insanidade mental. Vamos parar com esses estereótipos, que tal?

Esses dias alguém me perguntou por que eu não escrevia nenhum conto mais “romântico”. Parei para pensar e, de fato, num livro inteiro não tem nenhum conto com a temática amor. O único que tinha relacionado a isso, a editora cortou fora por achar que poderia melhorar. E, de qualquer forma, a história não acabava nem um pouco bem, sendo a protagonista abandonada pelo cara que foi viajar e nunca mais voltou.

O que penso é: as pessoas querem mesmo ouvir histórias de amor? Você pode facilmente achar isso nos best-sellers, ou vá até a locadora mais próxima e peça uma sugestão ao atendente, certamente ele irá te recomendar alguma comédia romântica ao estilo americano que insulta a inteligência de qualquer pessoa. Ou então você pode ler a Stephenie Meyer. Eu sinceramente duvido que qualquer pessoa com interesse em literatura de verdade faça questão de ler uma história de amor. Há tanto sobre o que escrever, quem é que liga pra porcaria do amor?

Mas, bem, quem sabe um dia. Só pra não ficar com fama de escritora depressiva, ou de escritora mal-amada, eu tente me aventurar por estes temas. E que ninguém se mate no final da história, ninguém viaje e nunca mais volte, um final minimamente feliz, será que consigo?

É, não vai dar. Nem com todo o Prozac do mundo.