marcella mattar

escritora. o resto é pura indecisão.


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Rabiscos tortos

“Os dedos trêmulos, incapazes de escrever, rabiscavam o papel em contornos sem direção que não representavam qualquer coisa.  E era essa a expressão mais real de seu sentimento, mais significativo que quaisquer palavras: um monte de rabiscos tortos, linhas que se perdiam sem achar nenhum rumo. “

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Aqui, agora

“Quarta-feira, 7 de agosto, quarto de hotel.

 

  – Se você pudesse estar em qualquer lugar agora, qualquer um, onde gostaria de estar? – perguntei, debruçada em seu peito, debaixo das cobertas que nos cobriam até a cabeça.

 – Qualquer lugar?

 – Isso, qualquer lugar.

  Ele mirou o teto por um tempo, com o olhar pensador.

– Eu diria… Naquela ilha do Pacífico que visitei há uns anos atrás.

 Respirou fundo, com ar de nostalgia.

– Era um pedaço de paraíso completamente inabitado, vazio, a representação da própria solidão. Ainda assim, um dos lugares mais bonitos que já vi… A sensação de estar só em volta daquele oceano enorme e sem fim era como ser a única pessoa do mundo. Nunca vou me esquecer.

   Olhei nos olhos divagantes que pareciam ter se transportado para a ilha.

– Você quer dizer que, de todos os lugares do mundo, você escolheria estar em um que te remete à solidão profunda e total?

– É, isso mesmo… Ah, Bri, você me conhece. Sabe que essa coisa de levar vidinha de gente na cidade não é comigo.

– Sim. Isso é tão clássico de você.

  Ele afastou as cobertas para acender um cigarro. O cheiro do Camel e o gosto de cinza apagada em sua boca não me incomodariam mais.

– E você? – falou, em meio a uma tragada – Que lugar escolheria para estar?

  Aconcheguei-me em seu ombro por cima dos cobertores e olhei para a janela aberta do hotel. O dia era de sol, o céu e os prédios que podia enxergar dali constituíam uma imagem colorida. Atravessando essa imagem de um universo em que, para mim, tudo era vívido e claro, veio a fumaça do cigarro dele. O espectro branco dançou no ar, depois se foi.

– Aqui, agora. Com você.”

 

trecho do conto Estação de trem, de 2010.


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Se ao menos estivesse nevando

“- Queria que estivesse nevando.

Ouvi a voz doce como num susto enquanto respirava o ar de fim de tarde. Não havia percebido sua presença na varanda. Ela se debruçou nas grades, ao meu lado, e ficou contempladora diante da vista da cidade numa névoa branda.

– É só um monte de prédios, não é mesmo? – eu disse.

Ela assentiu com a cabeça.

– E frio. – num suspiro, dirigiu-me o olhar – Frio sem neve.

Olhei por mais um tempo para os prédios esbranquiçados pela neblina. O céu era uma mistura de azul escuro e cinza, sem estrelas.

– Frio sem graça dessa cidade, é verdade. Bom para fumar um cigarro em frente à lareira e só.

– A Milena não deixa que a gente fume dentro de casa. Lá dentro é tão mais quentinho. Tem certeza que você vai ficar aqui fora?

Larguei o toco do cigarro ao ar livre e fiquei assistindo à queda. Perdi a direção do caminho antes que ele chegasse ao chão. E então me ocorreu que deveria ser bom cair assim do nono andar, o vento batendo no corpo e a sensação de alívio, liberdade, fuga. A queda livre do nono andar me propiciaria muito mais emoções do que tive a vida inteira, e ainda do que terei nessa noite sem sentido, certamente.

A vontade de sair voando para fora desse andar foi súbita. Mas o cigarro caiu, atingiu o solo, e fiquei procurando enxergar o toco no chão, embora soubesse que àquela distância seria impossível.

– Vou ficar aqui esperando tudo escurecer, respondi.

– Vou ficar com você.

– Tem certeza?

Logo vi a expressão magoada que minhas palavras trouxeram. Corrigi:

– Isto é, não precisa se você não quiser. Não quero ser o motivo de você sentir frio.

Ela abotoou o casaco xadrez, apertou o cachecol verde no pescoço e me olhou como quem houvesse solucionado uma equação algébrica complicadíssima. Os cabelos de Lena voavam conforme o vento ficava mais veloz e, apesar de ter de ficar desviando o cabelo do rosto, ela não pareceu nem um pouco atrapalhada.

Então percebi que ela estava próxima demais a ponto de ajeitar o meu casaco, torto e destrambelhado como eu. Ela puxou os ombros do casaco para cima, e cada toque leve no meu pescoço – que eu não conseguia bem saber se era proposital ou não – me fazia estremecer. Do outro lado das portas de vidro, dentro da casa, ouvia-se alguma música qualquer e muitas vozes perdidas, nas quais eu já não prestava mais atenção.

– Me dá um cigarro.

Abandonei a vista da cidade melancólica para focar nos olhos castanhos cobertos de maquiagem que estavam em minha frente.

– Mas você não fuma.

Ela gargalhou.

– Claro que fumo. Fumo com você.

– Ah, pare.

Ela arrancou o cigarro da minha mão bruscamente e colocou na boca. Tragou fundo e soprou a fumaça no meu rosto, debochando.

– Ok, ok. – rendi-me.

Fiquei esperando que me devolvesse o cigarro. Não devolveu. Agora estava concentrada na vista, encostada nas grades de ferro que buscavam proteger de algum acidente. Percebi que ela estava, naquele momento, exatamente como eu. Exatamente da maneira como eu estive ali fora, sentindo-me só e observando uma cidade cinza que não continha beleza alguma. Lena jogou o toco de cigarro e as cinzas ao ar livre e, diferente de mim, não olhou para baixo para assistir à queda.

– Essa vista – ela interrompeu o meu pensamento – não tem nada, mas é atordoante.

Senti que ela entendia demais sobre como eu me senti a vida inteira. E era tão difícil conseguir esse tipo de identificação com alguém. E alguma aproximação mínima que fosse com qualquer pessoa.

– É. – concordei – Um nada atordoante.

– Se ao menos estivesse nevando.

Sorri para ela. Se ao menos estivesse nevando, repeti as palavras em minha mente.

– Queria que tivesse uma varanda na minha casa. Desse jeito, eu não precisaria passar tanto tempo na janela. – ela disse.

– Você adora janelas.

– Sim. Não há nada pior do que se fechar dentro de casa.

Pude perceber o tom de melancolia daquelas palavras.

– É por isso que você veio aqui fora?

– Não, seu bobinho. Lá dentro estava legal. Mas eu percebi que você tava aqui sozinho – ela fez um gesto gentil.

– E então?

– E então comecei a pensar sobre o que você estava pensando.

Sorri para ela. O casaco xadrez até os quadris tapando a calça jeans, a echarpe e as botas que ela usava todo dia, a expressão meiga no rosto constituíam uma bela visão.

– Eu estava me divertindo acompanhando a queda de cada cigarro até o chão.

Ela riu – você acha isso realmente divertido? Acho, respondi. Melhor do que ficar lá dentro. Nada pior do que ficar preso dentro de casa, não é mesmo?

– Lá dentro tem lareira.

Lena por vezes olhava para mim, outrora para a vista da cidade que escurecia conforme a noite se aproximava. O barulho do vento soprando era o único som do nosso anoitecer. A música que ecoava por uma pequena fresta na porta de vidro da varanda já passava despercebida.

– Você quer mais um?

Ela olhou a caixa de marlboro vermelho em minhas mãos que já estava pela metade. Fez que não com a cabeça.

O silêncio que pairou a partir de então foi do tipo sereno e desconfortante ao mesmo tempo. Uma Lena silenciosa e no frio aqui fora, compartilhando comigo esse momento estranho. Um momento mais quieto, mais triste, mais calmo e menos divertido do que o que existia por dentro dos vidros que nos separavam do restante. Imaginei a euforia do pessoal dentro da sala, as meninas com drinks coloridos dançando e rindo. Um bando de rapazes em volta babando e tentando arranjar uma maneira de abordá-las sem parecer uns idiotas. Impossível não parecer idiota nessas situações. Prefiro aqui. O frio, a varanda. O cabelo castanho-claro de Lena voando ao meu lado. O silêncio. Pensar sobre a neve que não havia e tampouco viria, não nessa estação, não nesse ano.”

trecho do conto Se ao menos estivesse nevando, do livro O movimento do oceano (2012).


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Anita e a Mortalidade

“Na verdade, acho que Anita tinha mais conhecimento da mortalidade do que qualquer outra pessoa, e por isso o medo. Anita sabia que a única forma de se tornar imortal, de sobreviver à mediocridade seria escrever, mas ela nunca conseguira fazer isso. Ela tinha idéias demais para colocá-las em algum lugar. Era confusa demais, era precoce demais para transformar as sensações em algo concreto, em algo fixo. Anita queria viver a vida, e não pensar sobre ela. Anita queria sentir, e não analisar o mundo. Queria tudo, e conseguiu me fazer querê-lo também.

Pena que não durou, durou muito pouco a minha fase de ser assim. Durou pouquíssimo a minha fase de ser inteiramente feliz. Um dia, todos irão acordar, pensei. Eu ainda não o queria, no entanto. Ainda queria estar ali e ser livre, e foi então que me entreguei.

Naquela noite, deitei-me na cama com um sentimento novo. Posso dormir o quanto for, posso não mudar de lugar, mas amanhã não seremos mais os mesmos.”

trecho do conto Ipanema, do livro O movimento do Oceano (2012).


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Se perder para se achar

Quando nos damos conta de que estamos vivendo num vazio imenso, é impossível não lembrar dos dias em que já fomos tão mais felizes. Porque em algum momento já o fomos. E, não importa qual seja o tamanho dessa distância numa ordem cronológica, sempre irá parecer absurdamente longe. Como se os dias felizes pertencessem a uma outra realidade, e não fosse possível haver sensações tão dissemelhantes em um mesmo mundo.

Mas sim, existem.

Lembrei, então, de um dia qualquer em Londres, um dia que, para mim, nunca teve significado até agora.

Eu chegara de aula pelas cinco da tarde no fim de fevereiro e me surpreendi por ainda não estar escuro. O dia durava pouquíssimas horas no mês de janeiro, mas em fevereiro o sol costumava ficar até umas seis da tarde. Resolvi que era um bom momento para sair e andar pelo meu bairro, então resolvi ir ao Hamsptead Heath.

Eu não conhecia muito bem a área, assim como não conhecia muito bem nenhum lugar em Londres, mas achei que não seria tão difícil de achar o parque. Depois, fui entender que o lugar é dividido entre várias áreas com diferentes nomes, e algum deles é puro mato, sem nada.

Conclusão: Me perdi total no meio do mato, sem nem idéia de aonde estava indo.

Era literalmente como estar no meio da floresta, só que no bairro de Hampstead (conhecido por ser um dos mais sofisticados e seguros de Londres). Há alguns meses lá, eu já tinha me acostumado à sensação de solidão. Já tinha me acostumado a não ter a quem chamar, a não ter a quem ligar no celular, ser dona de mim mesma e fazer tudo por própria conta e risco. Mas, naquela tarde, só o que conseguia pensar é: por que diabos me meti aqui?

Tão mais fácil ficar em casa. Tão mais fácil não ir pra Londres. Tão mais fácil não falar inglês. Tão mais fácil não se acostumar a ser só.

Não senti nenhum desespero, no entanto. Só uma confusão tremenda, como quem literalmente se perdeu no meio da floresta. Só via um bando de árvores por todos os lados, ali a vibrante e urbana Londres não parecia o mesmo lugar.

Sem opção, comecei a andar sem rumo. Pensei em algumas pessoas para quem eu poderia ligar, mas de nada adiantaria. Eu nem saberia dizer onde estava, e certamente não havia nenhuma estação de metrô por perto. Até que, sem saber, eu estava me dirigindo a um lugar no topo da cidade que se chama Parliament Hill. É onde se obtem uma das vistas mais bonitas de Londres (a da foto). Ao chegar, eu sentei num banquinho e escrevi no meu caderno. E, hoje, estava lendo o que tinha escrito naquele dia. Foi então que me lembrei que estava feliz.

A memória que ficou não foi da uma hora (aproximadamente) em que fiquei perdida na floresta. Mas sim da sensação ao chegar no topo de Londres e ser agraciada com a vista da cidade.

Consegui, também, descobrir sozinha que estava perto de uma estação de Overground e não precisaria andar até em casa.

Agora, começo a pensar que a floresta é uma metáfora em tanto. A floresta é o vazio onde todos se perdem em algum momento, a sensação de falta de direção e não ter pra onde ir. Não ter a quem ligar, longe e do outro lado do mundo. No caso, literalmente.

Aqui, em minha própria casa, me sinto é muito mais distante. Muito mais perdida do que no meio das árvores do Hampstead Heath.

Mas a lembrança que ficou foi de chegar ao topo da montanha. E é este o lugar o qual não consigo visualizar. Talvez precise voltar a Londres, ao Hamsptead Heath e encontrar o Parliament Hill de novo… Precise resgatar a sensação de chegar em casa, já no escuro, e não encontrar ninguém além de um gato preto que morava comigo. E, ainda assim, ainda depois de se perder e de estar completamente só no mundo, não sentir nenhuma angústia. Nenhum tipo de dor ou vazio. Só a lembrança de Londres e sua beleza.

Espero, em algum momento, encontrar o meu Parliament Hill do Brasil.