marcella mattar

escritora. o resto é pura indecisão.


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Escrever não é.

Escrever é criar um mundo paralelo, uma realidade maior (com mais possibilidades), mas não necessariamente melhor.

Escrever é abdicar de viver o mundo real.

Escrever é não aceitar o mundo como ele é, pois ele não o satisfaz.

Escrever não é como ter uma religião e segui-la. Não é como ter um hobbie e praticá-lo. Não é como ter um trabalho e realizá-lo.

Escrever não é esquecer o ego, tampouco é valorizá-lo em excesso.

Escrever é enxergar esse ego e transformá-lo.

Escrever não é meditação, mas é transcendental.

Escrever é estar presente em corpo nos lugares, mas ainda assim continuar naquele outro mundo.

Os céticos e os geógrafos diriam que o mundo é um só.

Os religiosos diriam que ele é dividido entre o plano terreno e o espiritual.

Um escritor – e aí me refiro a um escritor de verdade, que abraça o ato de escrever não por desejo ou rotina – diria que há, sim, dois mundos. E que é possível existir nos dois simultaneamente, embora seja uma escolha do próprio escritor o mundo em que ele habitará mais.

Pode ser que um dos mundos o faça mais feliz do que o outro.

Pode ser que um dos mundos lhe pareça mais real do que o outro.

Os dois mundos são reais. E os dois mundos são absolutamente irreais.

Escrever não é uma vontade.

Escrever não é um trabalho.

Escrever é.

E não é nada.

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Descongelando (Unfreezing)

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Há quanto tempo você acha que congelou?

Rompi o silêncio enquanto visualizávamos o lago enorme do Hyde Park. Era um raro dia de sol em Londres, que produzia um reflexo rosado bonito na água. Algumas partes do lago ainda  estavam congeladas devido ao frio intenso que fizera nos dias anteriores. Observei bem o contraste entre a parte congelada e a descongelada – o reflexo do sol era mais forte na parte sólida.

– Não sei – ele me olhou com curiosidade – Que pergunta.  Sempre fica assim quando faz muito frio.

– Ah…

Eu nunca tinha visto um lago congelado antes.

– Quer um pouco? – ele ofereceu o copo quente de papelão, gentilmente.

Agarrei o copo na mão e cheirei.

– Chá inglês?

Ele acenou que sim com a cabeça.

– Como sempre – ri, devolvendo-lhe o copo – Não, obrigada. Prefiro o café.

Olhei-o de relance, com seu ar pensativo e as mãos encolhidas para dentro do casaco. Eu já me sentia reclusa demais para dizer qualquer coisa.

– No Brasil não tem chá?

– Claro que tem – respondi.

– Ah, bom. Senão eu não iria visitar você – o rapaz riu timidamente.

Fazia anos que não nevava em Londres e, naquele ano, nevara durante três dias seguidos. Ainda era possível ver algumas partes do parque cobertas em neve, derretendo aos poucos conforme o frio amenizava.

– Quer dar mais uma caminhada? – ele perguntou, enquanto continuava tomando o chá, como sempre estivera em todas nossas visitas ao parque. E era incrível pensar que eu iria sentir falta de um chá que sequer cheguei a provar.

– Não…

– Muito frio? – ele ofereceu o par de luvas pretas que estava sobre a mesa.

O lago à minha frente parecia ter se tornado imenso: minha visão não alcançava mais nada além de sua profundidade, o borro cintilante do sol colorindo as partes congeladas. Realmente o congelamento fazia das cores muito mais bonitas.

– Não, não. É só que… É estranho pensar que não virei aqui novamente.

Ele largou as luvas sobre a mesa. Olhou-me com tristeza.

– Mas você pode voltar, não pode? – perguntou.

– Eu acho… – respondi, sem certeza – É preciso ver as burocracias do visto… Se arranjar um trabalho no Brasil talvez consiga juntar dinheiro o suficiente para voltar.

Naquele momento, dei-me conta que quem estava congelada era eu. Como se estivesse ali dentro e afogando, submersa na água fria sem achar nenhuma saída.

Quanto tempo levaria para o lago descongelar?

trecho do conto “Descongelando” (2012).

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Unfreezing              

 

-For how long do you think the lake has been frozen?

I broke the silence as we visualized the huge lake at the Hyde Park. It was a rare sunny day in London, producing a stunning lightning reflection in the water. I noticed that some parts of the lake remained frozen due to the intense coldness of the previous days. I was enchanted by the contrast between the frozen and unfrozen part of the lake – the reflection of the sun was more intense on the solid part.

– I don’t know. – He looked at me with curiosity – What a question. It always looks like this when it’s that cold.

– Oh …

I had never seen a frozen lake before.

– Want some? – He gently offered me the hot cup he was holding.

I took the cup from his hands and sniffed it.

– English tea?

He agreed.

– As usual – I laughed, giving him back the cup – No, thanks. I prefer coffee.

I looked at him, looking thoughtfully with his hands tucked into the coat. I felt too introspective to say anything.

– Is there tea in Brazil?

– Of course there is – I answered.

– Good. Otherwise I would not visit you – the boy laughed sheepishly.

For years there was no snow in London and that year it had snowed for three days in a road. It was still possible to see some parts of the park covered in snow, melting slowly as the cold softened.

– Shall we take a walk for a while? – He asked, as he continued drinking the tea, like he had always been in all our visits to the park. And it was amazing to think that I would miss a cup of tea that I had never even tasted.

– No. ..

– Are you cold? – He offered a pair of black gloves that was over the table.

The lake in front of me seemed immense: my vision could not reach anything but its deepness, the scintillating smudge caused by the sunset coloring the frozen parts. The frozenness was definitely making the colors seem more beautiful.

– No, no. It’s just that… It’s strange to think that I won’t come here again.

He left the gloves on the table as he looked at me sadly.

– But you can come back, can’t you? – he asked.

– I think so … – I replied, uncertainly – I have to see the bureaucracies of the visa … If I manage to get a job in Brazil I might have enough money to come back.

At that moment, I realized that it was me the one who was frozen. As if I was inside the lake and drowning, submerged in the cold water unable to find a way out.

How long would it take for the lake to melt?

from the short story “Unfreezing” (2012).