marcella mattar

escritora. o resto é pura indecisão.


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Feminismo e “Não-Pertencimento” em Melanctha (ensaio sobre a leitura do conto Melanctha, de Gertrude Stein)

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Gertrude Stein, por Picasso.

 

“A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho.”
Clarice Lispector

 

 

Gertrude Stein tinha suas dúvidas sobre o seu livro “Three Lives”: ela entendia que o seu estilo poderia desagradar às expectativas dos leitores e que a simplicidade dos personagens poderia despertar pouco interesse nos leitores mais sofisticados. Incapaz de achar uma editora, ela própria bancou a publicação do livro, pagando inicialmente por uma pequena tiragem. Como o esperado, algumas cópias venderam – menos do que as que ela deu aos amigos e críticos – mas o livro, e especialmente “Melanctha”, achou, por fim, leitores entusiásticos.
“Melanctha” é um conto-quase-novela experimental que apresenta a vida de uma mulata inteligente e complexa emocionalmente. Cabe também ressaltar que, na época, era rara a representação de negros na literatura, pois poucos autores ousariam fazê-lo e pouquíssimos escritores eram negros. A verdade é que o conto rompeu com inúmeros padrões da época – a começar pelo fato de que Melanctha era “livre” sexualmente e assertiva, quando os valores da época Vitoriana ainda dominavam a vida das mulheres. O feminismo é muito presente na obra de Gertrude Stein, e ela lutaria pelo direito das mulheres (assim como Virginia Woolf) até o dia de sua morte.
O principal ponto da história é o conflito emocional de Melanctha, ao qual a autora nunca relaciona uma causa direta. Melanctha “perambula” (o verbo no original no inglês é wander, que, na minha opinião, tem uma conotação mais forte de divagação e sonho que a tradução em português não dá conta), “vagueia” pela vida, na constante busca por algo – sabedoria, experiência, libertação – algo que ela nunca consegue possuir completamente. Numa época em que era esperado que as mulheres escolhessem caminhos seguros e convencionais – casamento, filhos, vida de classe-média urbana – Melanctha é uma rebelde pois o seu questionamento indefinível em relação à vida sugere o desejo de uma mulher por mais. No entanto, o que é esse mais, a autora nunca diz.

 

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O que Stein busca é captar a realidade da vida emocional. Ela experimenta novas maneiras de usar as palavras e sentenças, desenvolvendo uma nova estética, uma nova maneira de representar o mundo através da arte. Quem está familiarizado com o contexto histórico no qual viveu Gertrude Stein, numa comunidade a qual ela própria chamou Geração Perdida, a Paris dos anos 20, poderá identificar a influência das pinturas cubistas na arte da época. Mas de que forma a pintura poderia influenciar a literatura? Gertrude era muito amiga de Picasso, e o fato de que a pintura é a própria apreensão da ilusão da realidade, este viés (abstrato, fantasmagórico) refletiu-se na literatura da época. A partir do cubismo, a representação do mundo passava a não ter nenhum compromisso com a aparência real das coisas. Tudo era visto por mais de uma dimensão – nada era estático. É dessa emergência presente no cubismo que advém o experimentalismo da linguagem de Stein – linguagem pela qual ela busca não apenas explicar as emoções dos personagens, mas evocar o imediatismo da emoção. A linguagem é densa, com muitas repetições, frases gramaticalmente incorretas (que até um falante de inglês como segunda língua consegue notar claramente na leitura), e uma imprecisão marcante.
O que Stein criou foi uma personagem inquieta, vítima de sua busca por aventura, o que resultava num latente erotismo. Sua relação com Jeff Campbell, homem quieto e sério, não daria conta de “aquietar” o desejo vibrante de Melanctha. A relação amorosa não era o suficiente para Melanctha e, na verdade, Melanctha é uma daquelas pessoas para as quais a vida não é o suficiente. Seu desejo é algo quase transcendental, uma sensação de não-pertencimento em relação ao mundo que a trazia excitação e sofrimento ao mesmo tempo.

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Criada pela mãe para ser uma religiosa, mas sem nunca ter conseguido entender a religião, é natural que Melanctha carregasse essa sensação de não-pertencer (à família, à cidade, à vida).

“Melanctha Herbert had not come yet to know how to use religion. She was still too complex with desire. (…) The young Melanctha did not love her father and her mother, and she had a break neck courage, and a tongue that could be very nasty.”

Se, por um lado, pertencer significa segurança, não-pertencer pressupõe liberdade, um impulso selvagem e uma constante angústia. Pois a liberdade e a angústia andam juntas, já dizia Sartre. E o impulso selvagem é representado, também, pela sua paixão por cavalos. A qualidade depressiva no humor de Melanctha, por outro lado, pode ser explicada por uma eterna insatisfação – o mundo não dá conta, existir não abarca seus desejos e impulsos intensos. Daí advém sua dificuldade de relacionar-se.

“Melanctha Herbert always loved too hard and much too often. She was always full with mystery and subtle movements and denials and vague distrusts and complicated disillusions.”

Melanctha queria o amor, mas tinha medo dele. Tinha medo que ele pudesse fazê-la perder sua coragem e força, visto que o amor exige entrega.

“Sometimes the thought of how all her world was made, filled the complex, desiring Melanctha with despair. She wondered, often, how she could go on living when she was so blue.”

A constatação de que a vida não é o suficiente é o que leva Melanctha a considerar o suicídio. A autora faz questão de introduzir diversos personagens na história e descrever a forma como estes vivem, fazendo um contraponto com o que seria uma pessoa que se contenta com o que tem, que aceita a mediocridade da vida humana, com uma que está sempre em busca de mais. Está diferenciação fica clara na relação de Jeff com Melanctha. Para os que convivem com ela, a constante insatisfação e tristeza no humor de Melanctha não parece fazer sentido, como uma doença incurável.

“Melanctha all her life was very keen in her sense for real experience.
She knew she was not getting what she so badly wanted, but with all
her break neck courage Melanctha here was a coward, and so she could not learn to really understand.

(…)

Melanctha always made herself escape but often it was with an effort. She did not know what it was that she so badly wanted, but with all her courage Melanctha here was a coward, and so she could not learn to understand.”

Através da repetição, podemos penetrar com vigor na emoção do texto, no psicologismo do personagem, de uma forma intensa para um texto escrito em terceira pessoa. A autora relata que Melanctha não aprenderia a entender. Mas entender o quê? O texto é repleto de perguntas sem respostas. Contudo, no contexto em que a frase se encontra, entender parece relacionar-se ao não saber o que era que ela tanto queria e o fato de que sabia ainda não ter conquistado esse desejo. Melanctha jamais pararia para refletir sobre isso – por mais que amasse o conhecimento, sua busca desenfreada por experiência não lhe permitia parar para pensar sobre essas experiências. Nada mais poderia explicar seu desejo além de uma sede insaciável – uma sede fadada ao fracasso, à eterna insatisfação.

“Melanctha Herbert wanted very much to know and yet she feared the knowledge.”

Podemos ver, claramente, a ideia do duplo no conto de Stein. Os desejos são, naturalmente, uma contradição: Melanctha deseja o amor e, ainda assim, deseja a solidão. Deseja o conhecimento, mas tem medo dele. É corajosa, mas covarde. Deseja encontrar aquilo que ela realmente quer e, por outro lado, sabe que ao encontrá-lo a busca terminaria, o que faz com que ela fique eternamente wandering, seeking, escaping.
Todos os duplos citados acima são, de alguma forma, a representação de um duplo abrangente – o duplo que permeia toda a vida humana e, consequentemente toda a literatura: O do Tudo e do Nada (também podendo ser entendido como o da Vida e da Morte).
Melanctha deseja tudo (a vida) ao mesmo passo em que não deseja nada (a morte). Suas vontades são tão entusiásticas que chegam a ser superficiais – ela nunca permite desenvolvê-las completamente, não permite que as relações a direcionem para qualquer lado, não permite que algo a preencha e cale este fantasma incontido interior. Ela tem medo de findar a busca.
Já dizia Sylvia Plath:
“Perhaps when we find ourselves wanting everything, it is because we are dangerously close to wanting nothing.”
A frase acima ilustra perfeitamente o drama vivido pelas mulheres da época, drama este que nos assombra até hoje, e que a literatura, tão bem como a psicanálise, apossou-se do tema: a infinita luta interna da pulsão de vida contra a pulsão de morte.
Há um mistério em torno de Melanctha, uma resignação que faz com que nenhum dos outros personagens com os quais ela se relaciona, nem mesmo Jeff, consiga conhece-la ou entende-la.

“He never, even now, was ever sure, he really knew what Melanctha was.”

Podemos ver, nessa frase, claramente um erro gramatical proposital: o correto seria who Melanctha was, mas Stein causa maior impacto ao coisificar a personagem e dizer que Jeff nunca soubera o quê Melanctha era realmente.

“Melanctha Herbert never had any strength alone ever to feel safe
inside her.”

Melanctha era forte, mas ainda dependente dos outros. O constante desejar pode ser entendido também como o reflexo de um vazio profundo interior. No momento em que o desejo cede, quando ela não estaria realizando nenhuma de suas experiências ou perto do coração selvagem da vida (Near to the wild heart of life é uma frase de James Joyce, In: Portrait of the artist as a Young man), ela não teria como encontrar nada senão o vazio amedrontador.
E, então, depois de tanto perambular, Melanctha morre sozinha, sem encontrar aquilo por que tanto buscou. Os últimos parágrafos do conto, nos quais é relatada a doença e morte de Melanctha, são escritos de forma quase maquinal, sem mais analogias ou referências emocionais. Os últimos parágrafos sugerem serenidade, como se, na morte, e somente na morte, Melanctha encontrasse a redenção, o fim do desejo e do sofrimento.

“Melanctha never killed herself, she only got a bad fever and went into the hospital where they took good care of her and cured her.
When Melanctha was well again, she took a place and began to work and to live regular. Then Melanctha got very sick again, she began to cough and sweat and be so weak she could not stand to do her work.
Melanctha went back to the hospital, and there the Doctor told her she had the consumption, and before long she would surely die. They sent her where she would be taken care of, a home for poor consumptives, and there Melanctha stayed until she died.”

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O invisível tempo que não cessa (tradução livre de um poema inédito do Borges)

Borges deixou muitos textos de lado, nunca pretendendo publicá-los. É o caso do poema a que me refiro, que faz parte de uma cadeia de sonetos que ele escreveu sem nunca ao menos titular ou mostrar a alguém. Esses poemas foram descobertos após a sua morte.

Como nem na Argentina foi publicado, tampouco foi traduzido. Por isso, resolvi traduzi-lo, tomando a liberdade de escolher o título que me pareceu adequado: a frase mais marcante do poema.

(dizem que a poesia é intraduzível, e é mesmo. depois de traduzir muitos poemas do inglês, posso dizer: não é fácil. mas o espanhol tem uma estrutura tão semelhante ao português que, com um pouco de criatividade, conseguimos descobrir palavras que mantenham as rimas. foi o que tentei fazer neste poema, porém, nas últimas linhas, ficou impossível rimar.)

 

Soneto IV (Jorge Luís Borges)

Los ordenes de libros guardan fieles

en la alta noche el sitio prefijado.

El último volumen ha ocupado

el hueco que dejó en los anaqueles.

Nadie en la vasta casa. Ni siquiera

el eco de una luz en los cristales

ni desde la penumbra los casuales

pasos de vaga gente por la acera.

Y sin embargo hay algo que atraviesa

lo sólido, el metal, las galerías,

las firmes cosas, las alegorías

el invisible tiempo que no cesa,

que no cesa y que apenas deja huellas.

Ese alto río roe las estrellas.

 

 

O invisível tempo que não cessa (trad. Marcella Mattar)

A ordem dos livros guardados é certeira

Na alta noite, num lugar determinado

O último volume tem ocupado

O oco deixado na prateleira

Ninguém em toda a casa. Nem mesmo

Um eco de luz nos cristais beira

Nem desde a penumbra, os passos

De pessoas pela calçada.

E, ainda assim, há algo que atravessa

O sólido, o metal, as galerias

As coisas firmes, as alegorias

O invisível tempo que não cessa,

Que não cessa, apenas deixa vestígios

Este alto rio que rói as estrelas.

 

Breve análise do poema: Borges inicia com a imagem da solidão de uma estante cujo vazio é preenchido por livros. Os livros, no poema, são também uma referência metafórica à passagem do tempo – a algo que remanesce, que sobrevive. Não há ninguém, nenhuma luz, nenhum barulho. Ele trabalha, então, a imagem de uma casa vazia. Contudo, há uma única e soberana presença em tudo o que ali está – a casa, a rua, a prateleira: o invisível tempo que não cessa. O tempo perpassa tudo isso, “coisas firmes” (cf. Virgina Woolf em As ondas: “Deixem-me ficar sentado aqui para sempre com coisas nuas, esta xícara de café, esta faca, este garfo, coisas em si”, ela propõe uma visão semelhante das coisas cruas e fechadas em si mesmas quando distantes do uso humano.), o tempo que não vemos e que se pronuncia através de rastros (“vestígios”) deixados: o alto rio que rói as estrelas. “Estrelas” parece ser uma metonímia de tudo o que é belo, jovem, radiante. Tudo o que o tempo, em sua maldição de não cessar, cedo ou tarde, destrói (“rói”).


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El acuario vacío

El acuario vacío

 

traducción português-castellano por Marcella Mattar, Lucho Pacora y Francisco Patrón hecha para presentación en el taller “La literatura anormal”, maestro Hernán Ronsino, en febrero de la Casa de Letras en Buenos Aires.

 

“De nuevo se murió”, dijo el hombre mientras servía una gran taza de café. Sólo entonces, al darse cuenta que las gotas de café habían manchado la toalla, “¡Mierda!”, abruptamente dejó caer la cafetera sobre la mesa y tomó un paño.

La mujer miró el acuario sin emoción.

– ¿Otra vez?

– Una vez más, dijo irritado, mientras trataba de limpiar la mancha en la toalla.

La mujer miró a su marido con indiferencia. Ni siquiera había notado el acuario vacío a pesar de llevar un buen rato en la cocina.

– Debe haber un problema con el agua – continuó el hombre – no es posible que se mueran tan rápido.

– ¿Puedes manejarlo? – Le dijo a su marido, mientras ella volvió a organizar los papeles de la mesa.

– Tengo que terminar mi tesis.

Ella lo oyó suspirar lejos de los pasillos del apartamento.

– Ahora paso por la tienda antes de que se despierte.

El acuario permaneció vacío hasta la mañana siguiente, cuando Juan llegó con un nuevo pez envuelto en una bolsa de plástico con agua.

– ¿Crees que éste se parece al anterior? – Dijo a su esposa, dejando caer la bolsa con el pez en la mesa.

Todo lo que tenía que hacer era seguir comprando un pez del mismo color. Todos eran iguales y la hija nunca se daba cuenta del cambio.

– ¡Cuidado! – exclamó la mujer – ¡No pongas esta cosa cerca de mis papeles!

Juan trató de mantener la calma, pero ella siempre se exaltaba. Miró por la ventana, el sol brillaba en el cielo azul magnífico. Era casi la hora del almuerzo.

– Voy a pedir a Rita que despierte a Marina – dijo, apartando los ojos del horizonte.

Recogió el recipiente con el pez y lo vio como claustrofóbico en la bolsa pequeña. Por un momento sintió pena. Luego tomó un cuchillo que estaba sobre la mesa, abrió la bolsa y mecánicamente puso el pez en el acuario.

Marina llegó a la cocina hablando de las actividades de la escuela. La madre se retiró de la cocina para leer en silencio .

– ¡Buenos días, zanahorita! – Dijo, mirando el pez de color naranja en el acuario

– Papá, el pececillo está cada día más hermoso.

El padre se echó a reír distraído mirando la televisión. Marina se sentó a la mesa y esperó por la comida.

– Papá, la toalla está sucia.

– Papá sin querer derramó café.

– ¿Y no vás a comprar otra?

– Ahora no – respondió él.

– Era mi toalla favorita.

Marina habló con el pez mientras Rita preparaba el almuerzo. Era su mejor amigo, su compañero más fiel. Después del almuerzo , el padre fue a trabajar y la madre se quedó en la cocina a escribir la tesis. Le gustaba estar en la cocina porque más tarde podría ver el atardecer. Rita buscó Marina en la escuela, y el día pasó como otro cualquiera.

En algún momento de la madrugada, Marina se despertó asustada. Había tenido una pesadilla. Soñó que su madre se convertía en pez y nunca volvía a la normalidad. Pero no era un pez bonito, era uno de esos monstruosos de los que ella tenía miedo. Se levantó de la cama. Tenía sed. Entró en la cocina, a través del silencio y la oscuridad de la habitación, preguntándose si los padres ya estaban dormidos . La cocina tenía grandes ventanas y era iluminada, aliviando su temor. Por alguna razón , todo el mundo en la casa tenía una preferencia extraña por la cocina. Tomó un vaso en el armario y lo llenó de agua hasta casi derramarla. Se lo tomó todo. Como se sentía sola, fue al acuario y se quedó allí viendo el pez durante largos minutos. Escuchó un ruido extraño proveniente de la habitación de la empleada. Se preguntaba cómo sería vivir bajo el agua . ¿Cómo respiran los peces ? Él era tan lindo. Los gemidos de la habitación de al lado no paraban. Mientras tanto, “zanahorita” siguió corriendo de un lado a otro, haciendo movimientos sin sentido. Simplemente paseaba por el cubo de cristal. En algún momento se detuvo, mirándola como si supiera que ella lo estaba viendo. La chica miró profundamente los ojos del pez. Sintió que el animal la miraba también, comunicándose con ella. El acuario era melancólico, aunque los padres nunca lo dejaran vacío. Se imaginó a su madre durmiendo sola en el otro lado del departamento. Sonrió al pez de color naranja, este “zanahorita” era uno de los más bonitos que había ganado en los últimos meses. Sumergió su pequeña mano en el agua y agarró al pez. Cuando él estaba muerto, lo devolvió al acuario y luego regresó a su cuarto a dormir nuevamente.


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Colored shells (letter to my father)

translation from the piece “Conchinhas coloridas (carta ao pai)”, by Nick Wong and me.

 

Waves washing over seashells on the beach

 

I still remember those days that carried the airs of summer, even when it wasn’t summer, and of the enthusiasm topping our new discoveries from the adventures at the beach. Adventures, dad, because that is what those days meant to me. I remember all the shells and the tireless distance that we covered to pick them from the sand, one by one, so that when we arrived home – a home that at that time didn’t house the sobriety and darkness that now are there somehow – you could put them in a jar to decorate our room. But before we would align them, one by one with care, and we would select the most beautiful ones.

 

I always had a preference that, coincidentally or not, was the same as you had. It would be the most colorful one, with tons of pink and orange blurred in white, that would resemble the space of colors nestled in the return of the sun in the blue sky of the beach. The jar would stay there, and I would never tire of looking at it, admiring our collection of the day.

 

The beach was ours – mine and yours, and nothing else mattered to me. You would know how to answer the questions I asked about the sea, the fish, the sky, the shells. Today I ask myself if all of what you said to my insistent questions had something scientific behind it, or if you played with my imagination. Doesn’t matter, I would think, and you would never leave me without an answer.

 

I was less than 10-years-old and you would take me to walk on the beach to play with the world. The summer never had an end for us, and our house was never sad like it is now, because we had a jar full with special and favorite shells that would remind us that. Even during the cold days, the colors were there.

 

I only ask myself now, dad, where all my childhood dreams have gone, if they are lost in some place far from here. Some place without you, without our beach, without the sunny days or shells. I ask myself at what moment the world stopped being our amusement park and those days of one adventure after another. What happened to that magic, dad? I know that it couldn’t have disappeared by itself, we must have let it fade away. I don’t know at what exact moment I lost the entire bond that joined us, and that certainty that I would never need another person in my life because I had you. Something was lost in there, in that summer sky, and I don’t know if it died there, or simply wore out with time.

 

We must have let it go away, is what I feel to say. What I want to say to you is a little of this and much more: we let everything disappear. The beach is still there, dad. Nature will never stop to exist. The one who moved places was us. The one that lost the magic was us.

And I don’t think to speak in guilt. I think about letting go, about creating within itself a barrier, to distance itself so strongly to a point of not knowing more what is important. Everything is confusing, now. All I’ve got is jumbled ideas in my head that don’t go in any direction.

 

And so I think about the house.

 

When our living room turned dark, I remember the nights at the dining table when I could clearly see that the days on the beach had turned into mere past. I still don’t know what broke between us, but I knew instantly through that tired look in your eyes that you were no longer my father (or at least not the one that would play with me and make even the night feel full of life).

 

We would eat in silence, because your voice would be too spent to talk with me, and me, on the other side, wouldn’t know how to approach you without the closeness of our moments together. After, we would still eat in silence, because we would not have anything else to talk about with each other. One time or another, you would talk about your work, and how you had worked too much. You would ask, with forced interest, what I am doing when I’m outside the house. And I was already no longer a child.

 

If the jar still contained the shells or if it was empty, I wouldn’t know. The truth is, I didn’t know where the jar was. It was nowhere to be found here, that was the only thing I was sure of.

 

The jar meant everything to me. But I forgot the jar, and like that I forgot about the future that I had planned years before when I believed that all of life was still possible. I caught sight of trips and travels we would take, and a house getting more and more garnished with memories in the form of the pieces of the world that we would collect. Our house would smell of the sea, the sand, and it would keep the immensity of the world outside in a space so small, a space that was ours. I thought that I would see this space build itself, that I would count every step we would take. And I didn’t think that one day I would grow up. I didn’t see, I didn’t see our space destroy itself, nor see when it left inhabiting the hopes and dreams that you helped me create here. And I can’t deny that you had part in this, in building my hopes and dreams, although you’ve easily made everything turn into seriousness and to fatigue. I think I lost you to fatigue, dad.

 

However, if you think that you made my childish fantasies go away, you’re wrong. They’re still there. They’re still the decoration of the furniture in our room, they are still on the dinner table, in those conversations that we stopped having with one another. They’re in some space belonging to what almost ceased to exist. It would not be so easy. It would not be natural to wake for life in the same moment that you decided that I should. I still see all of this in some place, dad. And I know that I didn’t forever lose these traces of childhood in me. What I lost, in truth, was you.

 

Our house would not smell like the sea, it would smell like mold. It would smell like an old thing left to rot on the side. The windows would always remain closed, and I would no longer see the world. The world turned into a prison, where I would not be able to enjoy all I’ve dreamed of. But I know that all of it is in some place, lost between the sofa where I sat looking at the floor, and your room, much further down the corridor, where I know you would be.

 

Until one day you came and told me that our guest room, which was always empty, would be inhabited. But, Dad, it’s only you and me, it was always just you and me. It seemed that this wasn’t good enough anymore. It was a woman, and for some reason, I couldn’t see anything on her that weren’t dark circles under the eyes. When I asked you what she would be doing there, you told me that she would be in our house to take care of you, and to take care of me too. I wouldn’t need anyone to take care of me; I wish I would have said that to you earlier.

 

Now I know there are several facets of pain. There is the one that burns, that throbs in some place well inside, so deep inside that it feels almost like all the organs of the body are screaming, although the pain is not in there. And, then, there is the one that is less pronounced, that doesn’t exude disturbing sparks – that simply remains there in form of absence. It’s not only emptiness, but an emptiness that at one time was full. The pain of losing what we once had.

 

The silence and the darkness, the confused memories, the mixture of forgotten fantasies with the real world is all I see. But what part of these memories was really lost? If I could know, I would not need to worry myself in recalling, in getting over in my mind so many times an abandoned universe. If I could rescue the part of my imagination that was lost, maybe I would better understand why this cruel distance has established itself here – between me and the past, between me and you.

 

What happened was this: you adopted the dark eyes of that woman that entered our lives. Not that I believe that she had taken you from me, because the only one capable of doing so was you yourself. However, in my view, no longer so childish, what exists is the chaos from which you were trying to escape, and the fatigue from carrying the same life for years. I don’t blame you for the tiredness, for the desire to let life pass you by without caring. I don’t blame you for wearing away a job in where you always had to be the caregiver. You also needed to be cared for, and you didn’t have any more strength to worry about me.

 

I see clearly, now, the contrast between our two eras. We were once happy, dad. But we were only happy because you were happy. At some point, the part of you that desperately yearned to dodge all the obligations of life and with me turned more relevant than those old walks on the beach, which now only exist in a spent memory. And, suddenly, you were no longer happy. I saw it in your eyes, all the bitterness and dissatisfaction. I saw enter by some crack in the doors of our home the anguish of familiarity, the mediocrity of a routine without risk, and a mind that already wouldn’t house the capacity to share with me my world of dreams.

 

And it is because of this that, for much time, I left a big part of me inside that house and decided to flee, much like how you had done. But you did this without leaving physically. You can say that it was me who abandoned you, dad, because I left the house without giving you the last goodbye or telling you about the hurt that resided in me for so long. You can attribute all the blame on me, the irresponsibility, the destruction of our bond. And I would tell you that there was no bond to destroy, and maybe then you would recognize that to continue living in the same physical space was not proof of anything. I simply left, and they can call it a cowardly act. It wasn’t. It was courage, it was resentment, but somewhere deep inside, I don’t know how, there was still hope. An illusion, a small flame that I tried to extinguish, yet it continued in me to believe that life could still be beautiful. For believing that I can still achieve the immensity that I saw one day out there, for knowing there is more, that there is a whole universe on the other side of the ocean. That there will be other homes housing more colors than mine, and those will be even more colorful than mine once has been. That there exist other beaches, even though in the same ocean, and many other shells to see there. They are brought by the sea, and if nobody collects them from the sand, what will happen to them? This was the question that I never asked you. Where do the shells go? Do they stay in the sand, stationary, forever? I’m sure that they go somewhere. The sea must be in charge, or maybe the wind is in charge of taking the shells to some place. I guess I’ll have to find out for myself this time.

 

You would not believe it if I told you, but I believe and hope for more colored days, still. I believe in the sound of the ocean touching the sand, inside the rustling of the leaves when they fall upon the waves that run without direction. The waves don’t follow an exact pattern, isn’t that so? They go, simply. They don’t run back. Some are higher, much stronger, much faster. Some make more noise. I’m like one of those waves, dad. I don’t know exactly where I’m going, but the only certainty that I have is that I’m moving forward. I’m going, that’s all I know. I walk with the movement of the ocean. I allow time to pass by freely, without fears of looking back. Without pain. The pain I no longer feel, I don’t allow myself to feel. And, if I close my eyes for some seconds, wherever I am, I can see all that I saw years ago, in a completely different sphere. It’s as if I was there again, because I can clearly see the blue sky mixing with the green ocean water and golden twinges. They were the rays of the sun. And I thought, also, that when the shells had yellow scribbles, they were the rays of the sun. It probably wasn’t, but for me it was an uncontestable reality. What matters, now, is that when I close my eyes, I can still hear the noise of the sea behind me, in a way that I almost believe to be real. The anxieties are gone, from one moment to another, while I’m still there – in the middle of the vast ocean listening to the crashing of the waves. I will continue there, unmoving, until I sink in the profundity of the imaginary water and realize it is nothing but a memory, which becomes more dull and unreal with time.

 

And it is for this I was different from you, you that stopped fighting for the life that could be yours if only you would overcome the fears, the humility and the shortage of forces to act. I came to the world that I knew was always behind the abandoned city of my childhood, and I let a life that belonged to you be solely yours. That is it. I put myself out. I eased a way for you to deal with your pain – so that you can embrace depression as much as you wish, so that you can save all the displeasure and the unwillingness for you. I left the past intact where it should be: inside my memories. I’ll pretend it did not happen the moment in which the charm was lost. I will save only the part where we were happy, you can be sure of that.

 

I didn’t have a mother. I also didn’t have a father, after a time. You want to know what I have then? I have fantasies, a sweet glance around the possibilities of what awaits me in this new life. And I have a jar full of colored shells that I stole from a home that could no longer house such beauty. I have the beach. I have my eyes, my hands, and while they are able to touch life, I won’t give up on it so easily.

 

With you, dad, I learned so many lessons. One of them was about how easily it is to surrender to a dimension where there is no life, only loneliness that comes from fatigue. The other was a long time ago, I don’t remember very well, but it was something about seeing the world until it existed. It was something like you asked me until how far I could see the sea. I looked for both sides, for the back of the ocean, and I couldn’t see the end. I told you that it never ended. Just like how I could believe in everything that sounded beautiful, realistically, I believed in that moment that there was the ocean on all sides. “Then, if I start swimming without stopping until the front, are you saying that I won’t find another land like this ever?”  I cannot remember what you said, but I can suppose, and I prefer to believe that they are the words that I have in my mind now. I don’t know if they ever left your mouth that day, or if I invented them, it doesn’t matter, I prefer to have in my memory that your response was this: “It depends on what you are looking for – if you want land, you can swim until you find it. If you want infinity, it doesn’t matter which direction you go, it is infinity you will find.”


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Escrever não é.

Escrever é criar um mundo paralelo, uma realidade maior (com mais possibilidades), mas não necessariamente melhor.

Escrever é abdicar de viver o mundo real.

Escrever é não aceitar o mundo como ele é, pois ele não o satisfaz.

Escrever não é como ter uma religião e segui-la. Não é como ter um hobbie e praticá-lo. Não é como ter um trabalho e realizá-lo.

Escrever não é esquecer o ego, tampouco é valorizá-lo em excesso.

Escrever é enxergar esse ego e transformá-lo.

Escrever não é meditação, mas é transcendental.

Escrever é estar presente em corpo nos lugares, mas ainda assim continuar naquele outro mundo.

Os céticos e os geógrafos diriam que o mundo é um só.

Os religiosos diriam que ele é dividido entre o plano terreno e o espiritual.

Um escritor – e aí me refiro a um escritor de verdade, que abraça o ato de escrever não por desejo ou rotina – diria que há, sim, dois mundos. E que é possível existir nos dois simultaneamente, embora seja uma escolha do próprio escritor o mundo em que ele habitará mais.

Pode ser que um dos mundos o faça mais feliz do que o outro.

Pode ser que um dos mundos lhe pareça mais real do que o outro.

Os dois mundos são reais. E os dois mundos são absolutamente irreais.

Escrever não é uma vontade.

Escrever não é um trabalho.

Escrever é.

E não é nada.


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Descongelando (Unfreezing)

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Há quanto tempo você acha que congelou?

Rompi o silêncio enquanto visualizávamos o lago enorme do Hyde Park. Era um raro dia de sol em Londres, que produzia um reflexo rosado bonito na água. Algumas partes do lago ainda  estavam congeladas devido ao frio intenso que fizera nos dias anteriores. Observei bem o contraste entre a parte congelada e a descongelada – o reflexo do sol era mais forte na parte sólida.

– Não sei – ele me olhou com curiosidade – Que pergunta.  Sempre fica assim quando faz muito frio.

– Ah…

Eu nunca tinha visto um lago congelado antes.

– Quer um pouco? – ele ofereceu o copo quente de papelão, gentilmente.

Agarrei o copo na mão e cheirei.

– Chá inglês?

Ele acenou que sim com a cabeça.

– Como sempre – ri, devolvendo-lhe o copo – Não, obrigada. Prefiro o café.

Olhei-o de relance, com seu ar pensativo e as mãos encolhidas para dentro do casaco. Eu já me sentia reclusa demais para dizer qualquer coisa.

– No Brasil não tem chá?

– Claro que tem – respondi.

– Ah, bom. Senão eu não iria visitar você – o rapaz riu timidamente.

Fazia anos que não nevava em Londres e, naquele ano, nevara durante três dias seguidos. Ainda era possível ver algumas partes do parque cobertas em neve, derretendo aos poucos conforme o frio amenizava.

– Quer dar mais uma caminhada? – ele perguntou, enquanto continuava tomando o chá, como sempre estivera em todas nossas visitas ao parque. E era incrível pensar que eu iria sentir falta de um chá que sequer cheguei a provar.

– Não…

– Muito frio? – ele ofereceu o par de luvas pretas que estava sobre a mesa.

O lago à minha frente parecia ter se tornado imenso: minha visão não alcançava mais nada além de sua profundidade, o borro cintilante do sol colorindo as partes congeladas. Realmente o congelamento fazia das cores muito mais bonitas.

– Não, não. É só que… É estranho pensar que não virei aqui novamente.

Ele largou as luvas sobre a mesa. Olhou-me com tristeza.

– Mas você pode voltar, não pode? – perguntou.

– Eu acho… – respondi, sem certeza – É preciso ver as burocracias do visto… Se arranjar um trabalho no Brasil talvez consiga juntar dinheiro o suficiente para voltar.

Naquele momento, dei-me conta que quem estava congelada era eu. Como se estivesse ali dentro e afogando, submersa na água fria sem achar nenhuma saída.

Quanto tempo levaria para o lago descongelar?

trecho do conto “Descongelando” (2012).

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Unfreezing              

 

-For how long do you think the lake has been frozen?

I broke the silence as we visualized the huge lake at the Hyde Park. It was a rare sunny day in London, producing a stunning lightning reflection in the water. I noticed that some parts of the lake remained frozen due to the intense coldness of the previous days. I was enchanted by the contrast between the frozen and unfrozen part of the lake – the reflection of the sun was more intense on the solid part.

– I don’t know. – He looked at me with curiosity – What a question. It always looks like this when it’s that cold.

– Oh …

I had never seen a frozen lake before.

– Want some? – He gently offered me the hot cup he was holding.

I took the cup from his hands and sniffed it.

– English tea?

He agreed.

– As usual – I laughed, giving him back the cup – No, thanks. I prefer coffee.

I looked at him, looking thoughtfully with his hands tucked into the coat. I felt too introspective to say anything.

– Is there tea in Brazil?

– Of course there is – I answered.

– Good. Otherwise I would not visit you – the boy laughed sheepishly.

For years there was no snow in London and that year it had snowed for three days in a road. It was still possible to see some parts of the park covered in snow, melting slowly as the cold softened.

– Shall we take a walk for a while? – He asked, as he continued drinking the tea, like he had always been in all our visits to the park. And it was amazing to think that I would miss a cup of tea that I had never even tasted.

– No. ..

– Are you cold? – He offered a pair of black gloves that was over the table.

The lake in front of me seemed immense: my vision could not reach anything but its deepness, the scintillating smudge caused by the sunset coloring the frozen parts. The frozenness was definitely making the colors seem more beautiful.

– No, no. It’s just that… It’s strange to think that I won’t come here again.

He left the gloves on the table as he looked at me sadly.

– But you can come back, can’t you? – he asked.

– I think so … – I replied, uncertainly – I have to see the bureaucracies of the visa … If I manage to get a job in Brazil I might have enough money to come back.

At that moment, I realized that it was me the one who was frozen. As if I was inside the lake and drowning, submerged in the cold water unable to find a way out.

How long would it take for the lake to melt?

from the short story “Unfreezing” (2012).


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The death of London

On the way to the dream, something was lost.

now I’ve only got these lost feelings that don’t belong anywhere

don’t concern anything

they’re just a feeling that

something is out of place

something was lost

during the process

of losing you

I’m not myself anymore

Somehow

Coz everything I had, I gave you

I’ve given myself to you everyday

even when you’re not here

I’m still giving

coz this emotion

This thing – I don’t even know what it is – this energy

that keeps me going back to you everytime

is all I have

so I don’t wanna forget

No, I don’t want to let go

I want to feel it

in my heart, in my mind

I need to feel this to its most

coz that makes me feel closer to you

even when I don’t know where you are

even when we’re not talking anymore

I need to feel that part of you that is resting inside me

as if it’s waiting to become real

and maybe one day it will

if only I could see you again

That’s why I’m too afraid of forgetting

coz forgetting means losing even more

I thought I understood

what was happening to us

I never really did

However, I saw it in your eyes

all the beauty of life that has always been missing

and I knew that

I was never really happy

before I saw you that day.

I never really knew

how it felt to love someone

But for now

these lost feelings

will reamain here

Far from the streets we used to walk

Far from all the bridges of London

and the city lights

I know, somehow

that London is still there

without us

the places are still there

without us

there is no us anymore

there is me, with so much inside missing

there is you

somewhere out there

there is me

who is still very

in love with you.

 

 

 

april/2012