marcella mattar

escritora. o resto é pura indecisão.


1 comentário

She sees the beach through the glass window and notices it rains. It is a cold afternoon in February, even though it was summer. Facing the melancholy from which she’s always tried to run away, feeling it deeply inside herself, with no more doubts or fear, everything is relieved. She feels the fluidity of those hours, the inconstancy of life. As if there was also an ocean inside, a current about to break like the waves, a wild impulse to move on, towards the bottom of it – but the bottom of what, my God? And the fact that there was nothing she could predict, no guaranty of where she could end up at! God, what God? Still far from God and any truth, seeing her life as an empty and endless road – now without fearing the blank pages that had always brought her anguish, she accepts her future is null, clean as a desert. Vitória looks at the beach, the waves breaking in the clear sand; this renews her with some reborn type of hope. There was something being buried in her, leaving behind the hurt and helplessness. She felt strong. Yes, it was the same image as in her childhood, the same house where she grew up, but it did not seem like the same place. All that fear of suffering, for what? Death as an ally, for what? She misses her city, but no longer misses anyone. There, alone behind the walls, she didn’t think of anyone. In that minute, the moment was her whole life, the whole universe was the beach.


1 comentário

A kite in the nightsky

I lost you

Like a child loses her favorite toy

And I saw you

Fading away

A kite in the nightsky

All dark, all empty

Drifting slowly.

You said you liked your freedom

I pretended I liked mine

We were like two scared teens

Willing to lose it all

But unlike the kite holder

I have no control over the direction

You are going to follow

I lost you

To my imagination

You live in a world of fantasy now

You’re part of fiction

Like you were never once real.

A character,

A blurred memory

Nothing seems to last

It’s all doomed to disappear

I know I lost you

To fear

But I’ve once found you

In spite of fear.

And now I find you

In this confusing place

My mind keeps coming back to you

Even when it shouldn’t do

You’re still there, but not for long

Like a fish struggling to survive in land

Or footsteps in the snow.


Deixe um comentário

Um poema em francês

(Escrevi esse poema quando voltei da França e resolvi me experimentar no idioma. Deve estar cheio de problemas, mas deu pra fazer rimas legais. Quando escrevo alguma coisa num idioma que não é o meu, geralmente é para mandar para uma pessoa. Óbvio que no final acabei não mandando. Meu namorado da época nem gostava de poesia e só ia rir da minha cara).

Pendant que j’écris

tu es dejà au lit

sans moi

 

Pendant que tu dors

mon coeur veut être dehors

avec toi

 

Au tant que ça dure

Je vois tout obscure

en quelque endroit

 

Il est comme voire les étoiles

au fonde, loin

 

Il est comme trouver de l’eau

quand l’on a soif

et pouvoir pas le boire

 

Il est comme si le monde

fondre

Mon corps fondre

La vie est brume

Dans ma tête

Je te vois dormir

Je te vois tranquil

et ta main gentil

est encore ouvert

 

J’essaye de dormir

et ma main aussi

cherche pour toi

 

Je sais que tu es là

Mais je te vois si loin

et je n’ai plus de voix

pour te demander

de rester avec moi.

 

 


Deixe um comentário

A ausência que preenche tudo

(Post publicado originalmente no site feminista Casa da Mãe Joanna)

Quando digo que sou escritora, as pessoas imaginam que escrevo romances “femininos” (notem bem as aspas) inspirados em Nicholas Sparks. O meu livro venderia bem mais se fosse uma história de romance em que a vida da mina gira em torno de um cara. Ou uma história de vampiros. Ou, principalmente, uma história de romance com vampiros.

Mas não é.

O meu livro gira em torno de uma mulher. Até aí tudo bem. Na história, ela se envolve não com um cara, mas com vários. A maioria sem grande romantismo. E eles são só o pano de fundo da história.

A história é passada em Porto Alegre, num espaço que oscila entre a faculdade, bares e a casa da personagem. Como muitas de nós, ela se sente só e angustiada, incapaz de encarar uma realidade que lhe é opressora. É bastante evidente que o único caminho encontrado para lidar com tudo isso é o isolamento.

O livro traz temas como a depressão na juventude, as relações descartáveis da nossa geração e a passagem para a vida adulta.

“Enquanto estava sentada ali quieta, foi tomada pela ideia de que não queria nada daquilo. Nada do que as colegas estavam falando lhe atraía. Não conseguia pensar em nada além do fato de que ela morria lentamente. Algo morria, algo se calava. Não havia o que pronunciar. Não queria festa de formatura, não queria um currículo de cinco nem de oitenta páginas. Aquilo não a representaria. Tudo o que as pessoas faziam era por estarem buscando alguma coisa. Mas e ela, estaria buscando o quê? Enquanto a maioria das pessoas buscava incessantemente o amor, ela sabia que isso era só uma distração para aquilo que as pessoas realmente deviam buscar. Ainda não sabia o que desejar. Se deixarmos de lado os desejos materialistas, as vontades fúteis e o próprio desejo de agradar aos outros, o que é que sobra? Não tinha nenhuma intenção de casar e abominava a ideia de maternidade. Sentia-se imaginativamente recusando a tudo o que lhe oferecessem. Tentava pensar em algo que realmente quisesse, mas não vinha nada. E, ao mesmo tempo, vinham todos os desejos mesclados numa forma de agonia. Queria escrever um livro, viajar, conhecer desertos, montanhas e praias. Queria ficar com o professor, mas também queria conhecer outros homens, quando, a bem da verdade, não queria conhecer ninguém, apenas ser só, e tudo era tão confuso que até a fazia pensar que não queria nada disso”.

O meu livro nunca vai ser um best-seller, porque a personagem não está esperando por um homem que a resgate. Ela é incapaz de desejar aquilo que a sociedade espera que ela deseje. Ela quer mais. Ela precisa de mais. Mas ela não consegue ir além de si mesma. E, então, como muitas de nós, se afunda em uma depressão da qual não espera ser salva.

“Vitória abre as venezianas, olha a cidade mais uma vez, o forte vento rangendo. Existe um mundo por trás da janela. Sabe que, muito mais fácil que ter o controle da própria vida, é ter o controle da própria morte. A vida não – a vida é difícil, uma incógnita infinita. A morte é um ponto só, sem maiores questionamentos, na morte não há nada, escura e fechada em si mesma, um pulo e fim”.

No entanto, quando uma mulher – principalmente da nossa geração – lê o livro, ela me escreve: “Caramba, não acredito, é exatamente assim que eu me sinto. Não achei que mais alguém se sentia assim”.

É esse o papel da literatura. Mostrar que não estamos sós. Que nunca estivemos.

Não criar mais estereótipos de que temos de ser acolhidas, amparadas ou até mesmo compreendidas por um homem. Deixa isso com a Disney e com o Nicholas Sparks.

Fico bem triste em ver que ainda é esse tipo de literatura o que mais vende e mais se publica. Mas não importa. Contanto que ainda exista alguma literatura que vise a expressar como nós realmente nos sentimos, e não como deveríamos nos sentir. E, nesse encontro autora-leitora, podemos ter a certeza de sermos protagonistas de qualquer história – na literatura e na vida.

Leia a sinopse

Vitória é uma típica jovem da geração Y. Prestes a se formar na faculdade, sente-se incapaz de enxergar qualquer rumo para sua vida. Gosta de ouvir Pink Floyd, Radiohead e ler livros, mas não consegue se empolgar muito com nada. Em uma sociedade obcecada com o conceito de “aproveitar a juventude”, essa indiferença parece uma anarquia. Em meio a música, álcool e sexo casual, ela tenta lidar com um vazio inescapável.

Cansada do contato superficial com rapazes da sua idade, Vitória se envolve com o seu professor de Escrita Criativa. Ele é a única pessoa com quem ela consegue estabelecer uma relação minimamente verdadeira – ele compreende o seu drama, e isso a alivia no início. “O seu drama não era o drama do peso, mas o da leveza”, ele sublinhou no livro que lhe emprestara. No entanto, a relação com o professor acaba por trazer apenas mais incertezas. Ainda apegada à adolescência, a vida pede que ela cresça. Presa na própria solidão, Vitória se vê encurralada: sabe que deve terminar a faculdade e que deveria estar buscando uma relação que não fosse só sexo. Contudo, encarar a vida adulta parece uma tarefa impossível no momento.


1 comentário

Feminismo e “Não-Pertencimento” em Melanctha (ensaio sobre a leitura do conto Melanctha, de Gertrude Stein)

download

Gertrude Stein, por Picasso.

 

“A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho.”
Clarice Lispector

 

 

Gertrude Stein tinha suas dúvidas sobre o seu livro “Three Lives”: ela entendia que o seu estilo poderia desagradar às expectativas dos leitores e que a simplicidade dos personagens poderia despertar pouco interesse nos leitores mais sofisticados. Incapaz de achar uma editora, ela própria bancou a publicação do livro, pagando inicialmente por uma pequena tiragem. Como o esperado, algumas cópias venderam – menos do que as que ela deu aos amigos e críticos – mas o livro, e especialmente “Melanctha”, achou, por fim, leitores entusiásticos.
“Melanctha” é um conto-quase-novela experimental que apresenta a vida de uma mulata inteligente e complexa emocionalmente. Cabe também ressaltar que, na época, era rara a representação de negros na literatura, pois poucos autores ousariam fazê-lo e pouquíssimos escritores eram negros. A verdade é que o conto rompeu com inúmeros padrões da época – a começar pelo fato de que Melanctha era “livre” sexualmente e assertiva, quando os valores da época Vitoriana ainda dominavam a vida das mulheres. O feminismo é muito presente na obra de Gertrude Stein, e ela lutaria pelo direito das mulheres (assim como Virginia Woolf) até o dia de sua morte.
O principal ponto da história é o conflito emocional de Melanctha, ao qual a autora nunca relaciona uma causa direta. Melanctha “perambula” (o verbo no original no inglês é wander, que, na minha opinião, tem uma conotação mais forte de divagação e sonho que a tradução em português não dá conta), “vagueia” pela vida, na constante busca por algo – sabedoria, experiência, libertação – algo que ela nunca consegue possuir completamente. Numa época em que era esperado que as mulheres escolhessem caminhos seguros e convencionais – casamento, filhos, vida de classe-média urbana – Melanctha é uma rebelde pois o seu questionamento indefinível em relação à vida sugere o desejo de uma mulher por mais. No entanto, o que é esse mais, a autora nunca diz.

 

Three_Lives
O que Stein busca é captar a realidade da vida emocional. Ela experimenta novas maneiras de usar as palavras e sentenças, desenvolvendo uma nova estética, uma nova maneira de representar o mundo através da arte. Quem está familiarizado com o contexto histórico no qual viveu Gertrude Stein, numa comunidade a qual ela própria chamou Geração Perdida, a Paris dos anos 20, poderá identificar a influência das pinturas cubistas na arte da época. Mas de que forma a pintura poderia influenciar a literatura? Gertrude era muito amiga de Picasso, e o fato de que a pintura é a própria apreensão da ilusão da realidade, este viés (abstrato, fantasmagórico) refletiu-se na literatura da época. A partir do cubismo, a representação do mundo passava a não ter nenhum compromisso com a aparência real das coisas. Tudo era visto por mais de uma dimensão – nada era estático. É dessa emergência presente no cubismo que advém o experimentalismo da linguagem de Stein – linguagem pela qual ela busca não apenas explicar as emoções dos personagens, mas evocar o imediatismo da emoção. A linguagem é densa, com muitas repetições, frases gramaticalmente incorretas (que até um falante de inglês como segunda língua consegue notar claramente na leitura), e uma imprecisão marcante.
O que Stein criou foi uma personagem inquieta, vítima de sua busca por aventura, o que resultava num latente erotismo. Sua relação com Jeff Campbell, homem quieto e sério, não daria conta de “aquietar” o desejo vibrante de Melanctha. A relação amorosa não era o suficiente para Melanctha e, na verdade, Melanctha é uma daquelas pessoas para as quais a vida não é o suficiente. Seu desejo é algo quase transcendental, uma sensação de não-pertencimento em relação ao mundo que a trazia excitação e sofrimento ao mesmo tempo.

images
Criada pela mãe para ser uma religiosa, mas sem nunca ter conseguido entender a religião, é natural que Melanctha carregasse essa sensação de não-pertencer (à família, à cidade, à vida).

“Melanctha Herbert had not come yet to know how to use religion. She was still too complex with desire. (…) The young Melanctha did not love her father and her mother, and she had a break neck courage, and a tongue that could be very nasty.”

Se, por um lado, pertencer significa segurança, não-pertencer pressupõe liberdade, um impulso selvagem e uma constante angústia. Pois a liberdade e a angústia andam juntas, já dizia Sartre. E o impulso selvagem é representado, também, pela sua paixão por cavalos. A qualidade depressiva no humor de Melanctha, por outro lado, pode ser explicada por uma eterna insatisfação – o mundo não dá conta, existir não abarca seus desejos e impulsos intensos. Daí advém sua dificuldade de relacionar-se.

“Melanctha Herbert always loved too hard and much too often. She was always full with mystery and subtle movements and denials and vague distrusts and complicated disillusions.”

Melanctha queria o amor, mas tinha medo dele. Tinha medo que ele pudesse fazê-la perder sua coragem e força, visto que o amor exige entrega.

“Sometimes the thought of how all her world was made, filled the complex, desiring Melanctha with despair. She wondered, often, how she could go on living when she was so blue.”

A constatação de que a vida não é o suficiente é o que leva Melanctha a considerar o suicídio. A autora faz questão de introduzir diversos personagens na história e descrever a forma como estes vivem, fazendo um contraponto com o que seria uma pessoa que se contenta com o que tem, que aceita a mediocridade da vida humana, com uma que está sempre em busca de mais. Está diferenciação fica clara na relação de Jeff com Melanctha. Para os que convivem com ela, a constante insatisfação e tristeza no humor de Melanctha não parece fazer sentido, como uma doença incurável.

“Melanctha all her life was very keen in her sense for real experience.
She knew she was not getting what she so badly wanted, but with all
her break neck courage Melanctha here was a coward, and so she could not learn to really understand.

(…)

Melanctha always made herself escape but often it was with an effort. She did not know what it was that she so badly wanted, but with all her courage Melanctha here was a coward, and so she could not learn to understand.”

Através da repetição, podemos penetrar com vigor na emoção do texto, no psicologismo do personagem, de uma forma intensa para um texto escrito em terceira pessoa. A autora relata que Melanctha não aprenderia a entender. Mas entender o quê? O texto é repleto de perguntas sem respostas. Contudo, no contexto em que a frase se encontra, entender parece relacionar-se ao não saber o que era que ela tanto queria e o fato de que sabia ainda não ter conquistado esse desejo. Melanctha jamais pararia para refletir sobre isso – por mais que amasse o conhecimento, sua busca desenfreada por experiência não lhe permitia parar para pensar sobre essas experiências. Nada mais poderia explicar seu desejo além de uma sede insaciável – uma sede fadada ao fracasso, à eterna insatisfação.

“Melanctha Herbert wanted very much to know and yet she feared the knowledge.”

Podemos ver, claramente, a ideia do duplo no conto de Stein. Os desejos são, naturalmente, uma contradição: Melanctha deseja o amor e, ainda assim, deseja a solidão. Deseja o conhecimento, mas tem medo dele. É corajosa, mas covarde. Deseja encontrar aquilo que ela realmente quer e, por outro lado, sabe que ao encontrá-lo a busca terminaria, o que faz com que ela fique eternamente wandering, seeking, escaping.
Todos os duplos citados acima são, de alguma forma, a representação de um duplo abrangente – o duplo que permeia toda a vida humana e, consequentemente toda a literatura: O do Tudo e do Nada (também podendo ser entendido como o da Vida e da Morte).
Melanctha deseja tudo (a vida) ao mesmo passo em que não deseja nada (a morte). Suas vontades são tão entusiásticas que chegam a ser superficiais – ela nunca permite desenvolvê-las completamente, não permite que as relações a direcionem para qualquer lado, não permite que algo a preencha e cale este fantasma incontido interior. Ela tem medo de findar a busca.
Já dizia Sylvia Plath:
“Perhaps when we find ourselves wanting everything, it is because we are dangerously close to wanting nothing.”
A frase acima ilustra perfeitamente o drama vivido pelas mulheres da época, drama este que nos assombra até hoje, e que a literatura, tão bem como a psicanálise, apossou-se do tema: a infinita luta interna da pulsão de vida contra a pulsão de morte.
Há um mistério em torno de Melanctha, uma resignação que faz com que nenhum dos outros personagens com os quais ela se relaciona, nem mesmo Jeff, consiga conhece-la ou entende-la.

“He never, even now, was ever sure, he really knew what Melanctha was.”

Podemos ver, nessa frase, claramente um erro gramatical proposital: o correto seria who Melanctha was, mas Stein causa maior impacto ao coisificar a personagem e dizer que Jeff nunca soubera o quê Melanctha era realmente.

“Melanctha Herbert never had any strength alone ever to feel safe
inside her.”

Melanctha era forte, mas ainda dependente dos outros. O constante desejar pode ser entendido também como o reflexo de um vazio profundo interior. No momento em que o desejo cede, quando ela não estaria realizando nenhuma de suas experiências ou perto do coração selvagem da vida (Near to the wild heart of life é uma frase de James Joyce, In: Portrait of the artist as a Young man), ela não teria como encontrar nada senão o vazio amedrontador.
E, então, depois de tanto perambular, Melanctha morre sozinha, sem encontrar aquilo por que tanto buscou. Os últimos parágrafos do conto, nos quais é relatada a doença e morte de Melanctha, são escritos de forma quase maquinal, sem mais analogias ou referências emocionais. Os últimos parágrafos sugerem serenidade, como se, na morte, e somente na morte, Melanctha encontrasse a redenção, o fim do desejo e do sofrimento.

“Melanctha never killed herself, she only got a bad fever and went into the hospital where they took good care of her and cured her.
When Melanctha was well again, she took a place and began to work and to live regular. Then Melanctha got very sick again, she began to cough and sweat and be so weak she could not stand to do her work.
Melanctha went back to the hospital, and there the Doctor told her she had the consumption, and before long she would surely die. They sent her where she would be taken care of, a home for poor consumptives, and there Melanctha stayed until she died.”


Deixe um comentário

O invisível tempo que não cessa (tradução livre de um poema inédito do Borges)

Borges deixou muitos textos de lado, nunca pretendendo publicá-los. É o caso do poema a que me refiro, que faz parte de uma cadeia de sonetos que ele escreveu sem nunca ao menos titular ou mostrar a alguém. Esses poemas foram descobertos após a sua morte.

Como nem na Argentina foi publicado, tampouco foi traduzido. Por isso, resolvi traduzi-lo, tomando a liberdade de escolher o título que me pareceu adequado: a frase mais marcante do poema.

(dizem que a poesia é intraduzível, e é mesmo. depois de traduzir muitos poemas do inglês, posso dizer: não é fácil. mas o espanhol tem uma estrutura tão semelhante ao português que, com um pouco de criatividade, conseguimos descobrir palavras que mantenham as rimas. foi o que tentei fazer neste poema, porém, nas últimas linhas, ficou impossível rimar.)

 

Soneto IV (Jorge Luís Borges)

Los ordenes de libros guardan fieles

en la alta noche el sitio prefijado.

El último volumen ha ocupado

el hueco que dejó en los anaqueles.

Nadie en la vasta casa. Ni siquiera

el eco de una luz en los cristales

ni desde la penumbra los casuales

pasos de vaga gente por la acera.

Y sin embargo hay algo que atraviesa

lo sólido, el metal, las galerías,

las firmes cosas, las alegorías

el invisible tiempo que no cesa,

que no cesa y que apenas deja huellas.

Ese alto río roe las estrellas.

 

 

O invisível tempo que não cessa (trad. Marcella Mattar)

A ordem dos livros guardados é certeira

Na alta noite, num lugar determinado

O último volume tem ocupado

O oco deixado na prateleira

Ninguém em toda a casa. Nem mesmo

Um eco de luz nos cristais beira

Nem desde a penumbra, os passos

De pessoas pela calçada.

E, ainda assim, há algo que atravessa

O sólido, o metal, as galerias

As coisas firmes, as alegorias

O invisível tempo que não cessa,

Que não cessa, apenas deixa vestígios

Este alto rio que rói as estrelas.

 

Breve análise do poema: Borges inicia com a imagem da solidão de uma estante cujo vazio é preenchido por livros. Os livros, no poema, são também uma referência metafórica à passagem do tempo – a algo que remanesce, que sobrevive. Não há ninguém, nenhuma luz, nenhum barulho. Ele trabalha, então, a imagem de uma casa vazia. Contudo, há uma única e soberana presença em tudo o que ali está – a casa, a rua, a prateleira: o invisível tempo que não cessa. O tempo perpassa tudo isso, “coisas firmes” (cf. Virgina Woolf em As ondas: “Deixem-me ficar sentado aqui para sempre com coisas nuas, esta xícara de café, esta faca, este garfo, coisas em si”, ela propõe uma visão semelhante das coisas cruas e fechadas em si mesmas quando distantes do uso humano.), o tempo que não vemos e que se pronuncia através de rastros (“vestígios”) deixados: o alto rio que rói as estrelas. “Estrelas” parece ser uma metonímia de tudo o que é belo, jovem, radiante. Tudo o que o tempo, em sua maldição de não cessar, cedo ou tarde, destrói (“rói”).


Deixe um comentário

El acuario vacío

El acuario vacío

 

traducción português-castellano por Marcella Mattar, Lucho Pacora y Francisco Patrón hecha para presentación en el taller “La literatura anormal”, maestro Hernán Ronsino, en febrero de la Casa de Letras en Buenos Aires.

 

“De nuevo se murió”, dijo el hombre mientras servía una gran taza de café. Sólo entonces, al darse cuenta que las gotas de café habían manchado la toalla, “¡Mierda!”, abruptamente dejó caer la cafetera sobre la mesa y tomó un paño.

La mujer miró el acuario sin emoción.

– ¿Otra vez?

– Una vez más, dijo irritado, mientras trataba de limpiar la mancha en la toalla.

La mujer miró a su marido con indiferencia. Ni siquiera había notado el acuario vacío a pesar de llevar un buen rato en la cocina.

– Debe haber un problema con el agua – continuó el hombre – no es posible que se mueran tan rápido.

– ¿Puedes manejarlo? – Le dijo a su marido, mientras ella volvió a organizar los papeles de la mesa.

– Tengo que terminar mi tesis.

Ella lo oyó suspirar lejos de los pasillos del apartamento.

– Ahora paso por la tienda antes de que se despierte.

El acuario permaneció vacío hasta la mañana siguiente, cuando Juan llegó con un nuevo pez envuelto en una bolsa de plástico con agua.

– ¿Crees que éste se parece al anterior? – Dijo a su esposa, dejando caer la bolsa con el pez en la mesa.

Todo lo que tenía que hacer era seguir comprando un pez del mismo color. Todos eran iguales y la hija nunca se daba cuenta del cambio.

– ¡Cuidado! – exclamó la mujer – ¡No pongas esta cosa cerca de mis papeles!

Juan trató de mantener la calma, pero ella siempre se exaltaba. Miró por la ventana, el sol brillaba en el cielo azul magnífico. Era casi la hora del almuerzo.

– Voy a pedir a Rita que despierte a Marina – dijo, apartando los ojos del horizonte.

Recogió el recipiente con el pez y lo vio como claustrofóbico en la bolsa pequeña. Por un momento sintió pena. Luego tomó un cuchillo que estaba sobre la mesa, abrió la bolsa y mecánicamente puso el pez en el acuario.

Marina llegó a la cocina hablando de las actividades de la escuela. La madre se retiró de la cocina para leer en silencio .

– ¡Buenos días, zanahorita! – Dijo, mirando el pez de color naranja en el acuario

– Papá, el pececillo está cada día más hermoso.

El padre se echó a reír distraído mirando la televisión. Marina se sentó a la mesa y esperó por la comida.

– Papá, la toalla está sucia.

– Papá sin querer derramó café.

– ¿Y no vás a comprar otra?

– Ahora no – respondió él.

– Era mi toalla favorita.

Marina habló con el pez mientras Rita preparaba el almuerzo. Era su mejor amigo, su compañero más fiel. Después del almuerzo , el padre fue a trabajar y la madre se quedó en la cocina a escribir la tesis. Le gustaba estar en la cocina porque más tarde podría ver el atardecer. Rita buscó Marina en la escuela, y el día pasó como otro cualquiera.

En algún momento de la madrugada, Marina se despertó asustada. Había tenido una pesadilla. Soñó que su madre se convertía en pez y nunca volvía a la normalidad. Pero no era un pez bonito, era uno de esos monstruosos de los que ella tenía miedo. Se levantó de la cama. Tenía sed. Entró en la cocina, a través del silencio y la oscuridad de la habitación, preguntándose si los padres ya estaban dormidos . La cocina tenía grandes ventanas y era iluminada, aliviando su temor. Por alguna razón , todo el mundo en la casa tenía una preferencia extraña por la cocina. Tomó un vaso en el armario y lo llenó de agua hasta casi derramarla. Se lo tomó todo. Como se sentía sola, fue al acuario y se quedó allí viendo el pez durante largos minutos. Escuchó un ruido extraño proveniente de la habitación de la empleada. Se preguntaba cómo sería vivir bajo el agua . ¿Cómo respiran los peces ? Él era tan lindo. Los gemidos de la habitación de al lado no paraban. Mientras tanto, “zanahorita” siguió corriendo de un lado a otro, haciendo movimientos sin sentido. Simplemente paseaba por el cubo de cristal. En algún momento se detuvo, mirándola como si supiera que ella lo estaba viendo. La chica miró profundamente los ojos del pez. Sintió que el animal la miraba también, comunicándose con ella. El acuario era melancólico, aunque los padres nunca lo dejaran vacío. Se imaginó a su madre durmiendo sola en el otro lado del departamento. Sonrió al pez de color naranja, este “zanahorita” era uno de los más bonitos que había ganado en los últimos meses. Sumergió su pequeña mano en el agua y agarró al pez. Cuando él estaba muerto, lo devolvió al acuario y luego regresó a su cuarto a dormir nuevamente.